Estar dentro de um CTI neonatal é lidar diariamente com a delicadeza da vida. É um ambiente que exige técnica, atenção constante e sensibilidade. Pensando nas famílias que, muitas vezes, têm seus corações separados por uma incubadora ou por leitos de cuidados intensivos, a equipe assistencial do Centro Materno Infantil (CMI) encontrou uma forma especial de levar calor humano aos pequenos pacientes, os chamados “polvinhos do amor”.
Feitos com a técnica japonesa de amigurumi, um tipo de crochê que cria pequenos bonecos macios e delicados, os polvinhos são confeccionados com linhas 100% algodão e enchimento antialérgico. Mais do que um simples objeto, eles se tornam companhia e conforto para os recém-nascidos. Seus tentáculos remetem ao cordão umbilical, o que ajuda a acalmar os bebês e a reduzir o estresse da internação.
A técnica de enfermagem Luciana Tito, que atua há mais de 10 anos na UTI Neonatal e Pediátrica, é quem realiza a entrega dos polvinhos para os pacientes dos setores do CTI Neo, UCI e Canguru. Ao todo, cerca de 30 bebês já foram acolhidos com o gesto hoje.“Desde que conheci os polvinhos, há mais de 15 anos, me encantei com o significado deles. Levar esse cuidado para outros lugares virou um propósito. Hoje, participo dessa corrente do bem com muito amor. Cada polvinho entregue carrega carinho, esperança e força para que esses pequenos superem esse momento tão delicado”, conta Luciana Tito.

A Tecnica de enfermagem explicou que o projeto nasceu a partir da iniciativa de uma pediatra e de um grupo de idosas que, com a idade de mais de 80 anos, se reúnem para confeccionar os polvinhos. Mesmo com o passar do tempo, e até após a perda de uma das idealizadoras, a corrente solidária segue firme, movida pelo afeto. Como forma de retribuição, elas pedem apenas algo simples: ver fotos dos bebês com os polvinhos nas mãos.“A gente faz sem esperar nada em troca. Mas, quando vemos um bebê segurando o polvinho, sentimos que todo o esforço vale a pena. É amor que vai e volta”, completa.
A entrega dos polvinhos não tem data fixa, já que depende da produção artesanal das voluntárias. Ainda assim, nunca falha, sempre chega, no tempo certo, como um gesto de cuidado que respeita o ritmo de quem produz e de quem recebe.
Em meio à rotina delicada da internação, mães e famílias encontram nos polvinhos um alento. “Franciele Oliveira, mãe do Gabriel, que está internado há 15 dias nasceu prematuro às 32 semanas. “Hoje fui surpreendida com a entrega do polvinho, que chegou no momento certo. Fiquei muito emocionada, foi algo realmente especial. Esse cuidado que vocês têm com a gente e com os nossos bebês faz toda a diferença. Sou muito grata por esse gesto. E o mais bonito foi ver como ele se apegou ao bichinho… chegou até a dar um sorrisinho”.

Para o médico Frederico Melo, pediatra, intensivista e gerente médico da linha de cuidado da criança crítica, iniciativas como essa reforçam o compromisso do CMI com um atendimento que vai além da técnica.“Dentro de uma UTI neonatal, cada detalhe faz diferença. O cuidado técnico é essencial, mas ele precisa caminhar junto com o acolhimento. Os polvinhos representam exatamente isso, uma estratégia simples, segura e cheia de significado, que contribui para o conforto do bebê e também para o vínculo com a família. É a humanização acontecendo na prática, no dia a dia da assistência”.

Mais do que um projeto, os polvinhos do amor se tornaram símbolo de uma rede de cuidado que envolve profissionais, voluntários e famílias. Uma corrente silenciosa, mas poderosa, que transforma o ambiente hospitalar em um espaço mais acolhedor.
No Centro Materno Infantil, ações como essa fazem parte de um compromisso permanente com a humanização. Seja por meio do Método Canguru, do acolhimento às famílias, da escuta ativa ou de iniciativas afetivas como os polvinhos, o CMI segue fortalecendo o cuidado que olha para além da doença, enxergando histórias, sentimentos e vidas que merecem ser tratadas com respeito, dignidade e amor.